terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A Guerra dos Vermes XIV: O Fim do Outono



Morrigan não tinha muito o hábito de acordar cedo, mas a ocasião pedia algo diferente, Ela colocaria em prática a próxima fase de seu plano e começaria seu caminho para o Inferno. Ela era toda mudança e assim como seu novo rosto, também seu estilo havia mudado. 
A Nephandi usava ao invés dos vestidos decotados e provocantes, um corpete e uma calça de couro apertada que delineavam ainda mais suas formas. Mostrar menos e insinuar mais? Aquilo seria divertido. O perfume era mais sutil, doce, nada barato e como seu amado Raziel havia pedido, um longo e sedoso cabelo negro escorria pelos ombros nus. Morrigan estava ainda mais bela e mortífera, porém menos óbvia.
Haviam alguns livros na mesa, a Biblioteca Pública de Seattle era um ponto turístico magnífico, um lugar perfeito para um encontro á luz do dia, enquanto seus inimigos vasculhavam a noite. Dark ficaria orgulhoso. Ela estava mudando, inclusive mandara reformar a casa, havia mandado seus escravos restantes para um belo passeio nas ilhas gregas como recompensa. Em uma semana teria um belo apartamento, luxuoso e perfumado. A Rainha de Mafeas não viveria mais no mofo, na decadência e no fedor. Um verdadeiro demônio sabe aproveitar os prazeres do Mundo, e ela não seria exceção.
Miranda parecia confortável, mas não deveria estar. Nos últimos dias fora mantida em uma cela gelada, passara fome e sede e o medo da morte era constante, tanto que ela dormiu apenas algumas poucas horas. A jovem com mexas verdes no cabelo se perguntava onde estariam seus defensores, seus ditos guardiões que permitiram que ela fosse sequestrada. No entanto, ela não podia dizer que havia sido torturada. Não comeu por que não quis, pois havia comida. Morrigan ás vezes conversava trivialidades com ela e soava engraçada. Parecia uma daquelas mulheres poderosas, donas de empresa, imponente e sábia. Miranda não conseguia odiá-la, por mais que tentasse, mas algo dentro dela sabia da verdade, talvez fosse a tal rainha? De qualquer forma, quando ela a levou para o lago termal para um abençoado banho e lhe deu roupas caras e um bom perfume, a Rainha estava calada. "Vamos fazer um passeio querida, apenas isso" foi o suficiente para convencê-la, e ali estavam.
"já esteve aqui antes boneca?" Morrigan folheava um antigo exemplar da Divina Comédia, já lera aquilo milhares de vezes, mas era divertido fingir que aqueles livros eram todos novidade para ela. O óculos de grau, obviamente falso dava um charme ainda maior á Maga, e ela sorria como se conhecesse Miranda há tempos e falava baixo, para não ser expulsa da biblioteca.
"Não...nunca...é...é muito bonita..." Miranda se forçou a falar
"Eu não sei o que você realmente é mocinha, mas ouça, se existe alguma chance de você sair viva dessa história, essa chance sou eu, então por que você não se solta um pouco e me diz alguma coisa útil antes que nossa convidada chegue?" Morrigan disse as palavras olhando por cima das lentes, o tom era sério e Miranda sabia disso. Seu coração disparou.
"Dizem que sou a reencarnação de uma Rainha das fadas, uma tal Walléria, não me lembro de nada, mas sinto que há algum poder em mim...é tudo o que sei" A mudança de comportamento intrigou Morrigan. A Nephandi pegou as mãos de Miranda, tirou os óculos, ajeitando o cabelo no rosto e olhou fixamente nos olhos da jovem.
"Walléria Asfin, Rainha de Arcádia, se está neste corpo, invoco a ti. responda ao chamado de Morrigan Stonehall, Rainha de Malfeas." O rosto de Miranda mudou, uma expressão séria assumiu seu lugar e uma voz mais firme falou.
"Sim, eu estou aqui Morrigan, apenas não me manifesto pois meu corpo não suportaria minha forma Wyrd. Estou fraca, ja sou uma fada morta, é questão de tempo."
"Tão pessimista? E ainda a chamam de Rainha, e buscam por você o tempo todo? Que desperdício...esperava mais..." Morrigan era provocativa, mas a Rainha não parecia incomodada.
"Meu destino ainda será importante para meu povo, mas não da forma que eles acreditam. Meus dias de batalha acabaram, meu corpo se foi, minha alma está em pedaços e o que fala agora são os resquícios da lembrança, de um sonho distante. Não existe mais Walléria, apenas Miranda. O que quer de mim?" Ela soava calma, quase anestesiada.
"Eu? nada...meu trabalho era apenas trazer você para uma velha...amiga...mas pensei que talvez pudesse me ser útil, afinal, hoje em dia os amigos costumam ser menos confiáveis e previsíveis do que os inimigos..." ela se afastou, mas não tirou os olhos da jovem, voltando a folhear o livro. A Rainha ainda continuava lá.
"Se a Rainha da Corte do Inverno tiver minha alma, um mal nunca antes visto entrará no reino outonal, condenará a terra á um deserto árido e nem os deuses, nem as máquinas serão pareo. Se quer me ajudar, me leve para meus guardiões." O rosto mal tinha expressão.
Morrigan se ajeitou na cadeira, o silêncio da biblioteca fazia com que seus pensamentos parecessem ditos em voz alta. "Um mal nunca antes visto?" aquilo soava interessante. mas para a Rainha de malfeas, qualquer mal nunca antes visto deveria ter apenas dois destinos possíveis, ser destruído por ela, ou servi-la.
"Me fale mais sobre esse mal querida...estou começando a ficar, digamos, inclinada a ajuda-la, mas tudo tem seu preço, e eu não costumo investir em riscos."
"Imagine um ser que perdeu sua bondade em tempos muito mais antigos do que os demônios. Imagine um ser que abdicou da justiça para praticar o ódio, que abdicou da vida para venerar a morte? Imagine que esse ser presenciou a destruição de planos que nem o mais poderoso dos magos seria capaz de cogitar a existência..." Walleria parecia recitar um mantra.
Morrigan sentia o coração disparar. Seria esse ser a Wyrm Primordial verdadeira da qual seu amado Dark, ou seu avatar, havia falado? Talvez seu conhecimento não fosse assim tão grande e quem ela julgava ser tal criatura não passava de um vassalo da verdadeira. "Ah Dark meu amor, você não perde por esperar" a boca da maga chegava a salivar.
"E esse mal está ligado a você? é por isso que Celeste a quer?" Walleria não respondeu, ela tomou aquilo como um sim.
Morrigan observou a entrada da Biblioteca, ela podia sentir a presença de Celeste se aproximando.
"Escute, eu a ajudarei, suas horas estão contadas e você não tem outra opção, me mostre como agir, é sua ultima chance." Morrigan soava calma, mas o coração ainda estava acelerado.
Miranda mudou de postura, uma luz esverdeada emanava da jovem e em segundos a biblioteca parecia não mais existir. Uma espada longa, com um belo punho onde cada um dos dedos era encaixado, com três gemas encrustadas surgiu nas mãos da fada, ela agora possuía chifres de suas pernas eram peludas como as de um bode, os belos cabelos cacheados, verdes como a esmeralda mais brilhante e os olhos dourados. Morrigan sentia o sol do outono, o vento e o perfume das árvores. O burburinho na biblioteca era grande quando Morrigan se deu conta. Estava com a bela espada nas mãos e a jovem Miranda desmaiada sobre a mesa. Um feitiço vulgar as escondeu dos olhos curiosos mas a dentada do paradoxo se fez sentir, Morrigan sangrava pelos ouvidos, aquilo se curou lentamente enquanto ela carregava a menina para fora da Biblioteca. O encontro com Celeste foi repentino.
"Já está de saída Morrigan querida? Se não me engano estou pontualmente no horário..."
Celeste usava um vestido florido vermelho e um chapéu branco, com fitas amarelas, aquilo parecia uma veste angelical no corpo da fada, o que era do mesmo jeito com qualquer coisa que ela vestisse, até mesmo se estivesse nua. Morrigan parou por alguns segundos, reorganizou os pensamentos e sorriu.
"Nossa menina aqui usou um truque peralta na frente de toda a biblioteca...tive que sair escondida..." ela usava um tom sarcástico, mas sabia que aquilo não funcionaria com Celeste por muito tempo.
Celeste sorriu e apontou para uma grande escada, aquilo levava a um terraço, uma especie de mirante onde era possível tomar ar puro. Não haviam muitas pessoas ali e a mágica de ambas mantinham os olhares curiosos afastados. 
Chegaram á beira do mirante, Morrigan colocou a menina no chão, ainda desacordada, Celeste ficou de costas para o parapeito, o vento bagunçava seus cabelos de um tom lilás bem claro, ela olhava incrédula para a maga.
"Céus! você está LINDA amiga!" a fada acariciou a face de Morrigan, como se fosse beija-la, a maga se afastou e sorriu.
"Obrigada minha querida...nada que chegue a seus pés, mas digamos que tive alguns sonhos inspiradores..." o cinismo era visível.
"Bom, chega de perder tempo, ambas temos muito o que fazer. Aqui está o seu contrato, e os termos de compra, tudo definido. Você só precisa ir até o prédio da pentex para assinar o original." ela sorria satisfeita, mas Morrigan fechava a expressão.
"O que você quer dizer com o original?"
"Querida...uma mulher de negócios precisa ser precavida. Quem me garante que você não tentaria simplesmente roubar o contrato de minhas mãos sem me dar aquilo que foi combinado? Desculpe pela franqueza, mas nos dias de hoje não se pode confiar em ninguém, você deve me entender. Mas pelo visto você cumpriu sua palavra. O contrato está na mesa aguardando você, basta ir até lá e me passar a menina."
Morrigan sacou a espada que Miranda havia conjurado, Celeste deu dois passos para trás, inicialmente era medo, mas passou de incredulidade para um sorriso radiante.
"CALAELEN?!" ela gritou quase sem fôlego "Como...como você conseguiu isso?"
Morrigan sorriu "Consegui por méritos, mas acho que você terá que fazer uma visita ao prédio da Pentex comigo minha querida, os executivos vão ficar loucos com duas beldades como nós chegando lá ao mesmo tempo, não acha?"
"Não...você me dará a espada agora maga, e a menina também. Depois buscará seu papel e me deixará em paz. Eu, Celeste Blackside, Rainha da Corte do Inverno ordeno." Celeste brilhava com uma aura azulada, quase branca, Morrigan travou os dentes, o poder era grande demais, a espada caiu no chão e ela se via forçada a caminhar para trás. 
A Maga se concentrou e recitou um pequeno verso na língua do abismo. A telurian se rasgou atrás de Celeste e dela surgiu uma besta negra de pelos esverdeados, um dançarino da Espiral negra que saltou sobre ela, lhe rasgando o ombro em pedaços e gravando as presas no pescoço da fada. Morrigan se viu livre do comando e caminhou na direção da espada, mas a mesma voou para as mãos de Celeste que mesmo ferida mortalmente a empunhou, com um giro partiu o infeliz garou em dois pedaços e avançou na direção da maga. Morrigan se preparou para sentir sua l^mina, mas o que sentiu foi gosto de sangue, estava coberta com um sangue doce e ao mesmo tempo picante.
Miranda tinha a lâmina atravessada em seu peito, a dor era insuportavel e ela agonizava. Celeste sorria, mesmo sangrando e quase sem um dos braços. A jovem se ajoelhou, as lágrimas escorriam por seus olhos inocentes. Lágrimas de dor e tristeza, lágrima de uma menina que só havia conhecido sofrimento e horror, que não escolhera ser quem era. Lágrimas de alívio. Ela tombou inerte. 
Morrigan olhava incrédula, mesmo ela, um ser maligno por natureza sabia que aquilo havia sido um absurdo. Todo um povo estava condenado. A Rainha de Arcádia morreu. O outono acabou, O Inverno começou.
Celeste retirou a espada do corpo da jovem sem o menor cuidado, apoiando o pé direito e empurrando o corpo para trás. A lâmina cheia de sangue agora estava em suas mãos, ela parecia anestesiada de tanto prazer, o sorriso era insano. Ela apontou a espada para Morrigan em tom desafiador.
"Se ousar ir contra mim mais uma vez maga, destruirei você, destruirei sua querida Malfeas e se preciso for até seu amado demônio. Você não sabe o poder que eu tenho nas mãos agora. Não....me...desafie." Antes da resposta, a fada desapareceu em um portal de luz lilás, deixando um cheiro de neve e rosas no ar.
Morrigan ficou ali, sem saber o que fazer ou pensar, ela só conseguia olhar para o corpo da jovem Miranda, sem vida, sem futuro e sem vingança. "Bom" ela pensou "A parte da vingança eu posso dar um jeito".

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